Página do Cinema entrevista Renato Prieto

Werner Schünemann e Renato Prieto/Divulgação
26-08-2010 ////////

Renato Prieto

Protagonista do longa conta que se desesperou ao achar que não conseguiria fazer uma cena

Dono de um currículo de ator, diretor e produtor que inclui 19 peças, vistas por aproximadamente 5,5 milhões de pessoas, Renato Prieto tinha uma carreira consolidada no teatro e, pode-se dizer, a vida ganha quando Wagner de Assis o convidou para encarar um enorme desafio: protagonizar o filme “Nosso Lar” (veja o trailer), uma superprodução cujo elenco traz nomes de peso como Paulo Goulart, Othon Bastos, Werner Schünemann e Ana Rosa. Nele, o ator encarna o médico André Luiz, que narra sua trajetória após a morte pela colônia espiritual Nosso Lar em livro homônimo psicografado pelo médium Chico Xavier. Há uma semana da estreia do longa, Renato revela, em entrevista exclusiva à Página do Cinema, que se desesperou durante as filmagens ao achar que não conseguiria fazer bem uma cena, conta que fazia ioga durante as sessões de maquiagem que duravam até sete horas e diz que gostaria de usar a notoriedade conquistada no cinema para viajar pelo Brasil e para o exterior com seus espetáculos teatrais.

Alguns bons atores dizem precisar de um período de adaptação a um veículo no qual não atuam há algum tempo ou nunca atuaram. Você fez TV e curtas no início da carreira, nas décadas de 70 e 80. Desde então, vem trabalhando quase que exclusivamente em teatro. Sentiu alguma dificuldade no início das filmagens de “Nosso Lar”? O que muda do teatro para o cinema?

O ato de representar ou representar outras personalidades é inerente à experiência que você adquire ao longo da sua formação profissional. Transpor isso para a TV ou o cinema demanda que você use rapidamente a sua experiência, emoção e inteligência. É preciso também entender a importância de trocar idéias com quem sabe mais que você. Fazer teatro foi uma escolha. Gosto muito do palco, desse compromisso com hora marcada, do terceiro sinal antes de a peça começar. Se pudesse, moraria em cima do teatro, em um apartamento que tivesse passagem direto para a coxia. Fui convidado para fazer várias novelas, especiais e, recentemente, para uma minissérie. É uma questão de escolha. No caso do cinema, que é uma linguagem diferente, fiz um treinamento em que ensaiei, revi cenas e troquei experiências. O diretor vai te corrigindo e colaborando contigo também. É uma questão de perspicácia, observação e humildade para aprender com quem sabe mais.

Como foi a experiência de encarar sessões de até sete horas de maquiagem e participar de uma superprodução com grande aparato tecnológico, bem diferente do que se vê no teatro?

As cenas do umbral exigiam de mim uma disciplina e um foco muito grande porque às vezes eram seis, sete horas para fazer a maquiagem daquelas cenas de náufrago. Tinha de estar concentrado e atento o tempo todo. Confesso que, como sabia que ia demorar horas e horas, eu fazia respiração, ioga, batia o texto com os colegas que se aproximavam ou estudava uma cena. É uma experiência que vou levar para o resto da vida e plantar em outras áreas em que eu estiver atuando.

Em nenhum momento batia um cansaço ou um desespero?

Algumas vezes. Nos momentos em que eu precisava ficar parado, sem mudar de posição, para que arrumassem a luz – por causa da continuidade – e durante as longas maquiagens, dava uma paúra às vezes. Teve um dia em que fiquei muito preocupado porque tinha que tirar toda a maquiagem do corpo, barba e cabelo usados nas cenas do umbral, tomar banho e me arrumar para fazer uma cena de forte carga dramática em coisa de 20 ou 30 minutos. Eram quase 4 horas da manhã e tínhamos de fazer essa cena, em que ele retorna ao umbral e entende pelo que passou, antes de o sol nascer. Temi que não conseguisse dar o resultado esperado em tão pouco tempo. Mas os diretores me passaram todas as informações, eu comecei a fazer experiências em dois ou três minutos, fiz a cena e fiquei muito alegre quando eles deram o ok e disseram que era aquela a emoção de que precisavam. Nesse dia, porém, deu um desespero de não chegar ao resultado que esperavam.

Você dirigiu uma montagem de “Nosso Lar” para o teatro em 2001. A experiência o ajudou na composição do personagem para o filme? Como?

Hoje, tenho certeza de que foi muito bom não ter feito o André Luiz no teatro. Se tivesse criado o personagem na época e solidificado isso em mim, talvez encontrasse alguma dificuldade ao transpor isso para o cinema. Hoje, no entanto, fazendo o personagem no cinema, vejo como foi importante a convivência com a história na época. Não formatei uma ideia como ator, mas uma concepção do espetáculo. Por isso, cheguei para filmar aberto a todas as informações que me eram trazidas e tive a oportunidade de criar a partir delas.

Você estará ao mesmo tempo em cartaz com a peça “A Morte É uma Piada”, que trata o tema com humor, e com “Nosso Lar”, em que a morte é enfocada de maneira mais sóbria. Qual é a melhor maneira de encará-la? Você teme a morte?

Sempre digo para as pessoas: querendo ou não, você vai morrer. Ou, como prefiro dizer, vai desencarnar. Não adianta bater na madeira. Você nasce, cresce e, se for inteligente, aproveita esse período para evoluir, se tornar uma pessoa interessante, estudar, adquirir cultura e viajar o mundo. Ou então você pode nascer, crescer, achar que isso aqui é turismo e ficar 50 ou 60 anos nessa. E, claro, vai morrer do mesmo jeito. Por isso, é muito mais fácil tratar isso com naturalidade. Em “A Morte é uma Piada”, procuro mostrar para as pessoas, com reflexão e humor, que é possível encarar essas transposições – em que nascemos e morremos diversas vezes – com alegria.

Você tem uma carreira estabelecida no teatro, no qual atuam dirige e produz espetáculos de temática kardecista. Com “Nosso Lar”, seu trabalho vem ganhando mais espaço na mídia e será visto por muita gente que não o conhecia. Que oportunidades você gostaria que o filme abrisse?

O cinema me abre um campo muito maior. Já concedi uma série de entrevistas já que todos querem saber um pouco sobre o assunto, que é polêmico. Espero que essas pessoas convidem amigos e digam: “eu vou te levar para ver um filme que, eu não tenho dúvidas, vai mudar a sua vida para melhor”. No meu caso, já mudou. Um público maior vai se somar ao que já vinha me acompanhando. Vão conhecer a minha história. De onde vim, quem eu sou, o que penso e vão ver até o meu site pessoal. Não tenho dúvidas de que é um divisor de águas para mim. Gostaria que o empresariado olhasse para este ator que levou tanta gente ao teatro e patrocinasse os meus espetáculos teatrais, possibilitando que eles viajem pelo país e para países para os quais temos convites. Além disso, esse trabalho ampliou meus horizontes. Foi uma experiência extremamente enriquecedora e uma oportunidade única de conhecer gente que fez escolhas diferentes das minhas. Foi muito bacana trabalhar com um diretor de fotografia como o Uli Steiger, ser dirigido pelo Wagner de Assis, trocar idéias com o Paulo Goulart, o Othon Bastos, a Ana Rosa, a Rosane Mulholland e todos os outros atores. Um set de filmagem não deixa de ser um grande palco. É importante prestar atenção nas informações que trazem para você.

Assista a vídeo em que Ana Rosa, Rosanne Mulholland e Renato Prieto contam a história de André Luiz.

“Nosso Lar” tem efeitos visuais inéditos no cinema nacional. Leia reportagem e veja vídeo que mostra como eles foram feitos.

Trilha sonora do filme foi composta por um dos maiores compositores americanos e gravada pela Orquestra Sinfônica Brasileira.

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